| O Dia do Ano Novo judaico não é apenas uma ocasião de alegria mas, um dia dedicado à oração. É chamado Yom Hazicaron (Dia da Memória) - quando todas as criaturas são julgadas pelo Criador de acordo com seus méritos.
Devemos lembrar que o Supremo Juiz do Universo é bondoso e misericordioso. Seu propósito não é punir. D'us apenas quer que sigamos as Leis e regulamentos que Ele nos impôs para nosso próprio bem.
Durante o mês de Elul, com a aproximação de Rosh Hashaná, tomamos a resoluta determinação de corrigir qualquer mal feito ou hábito descuidado do passado. Um sentimento toma conta do coração do verdadeiro arrependido, como se removesse um fardo pesado do passado. É o sentimento de poder recomeçar a vida como uma criança recém-nascida, sem máculas nos seus registros. São estes os sentimentos que o judeu traz à sinagoga na primeira noite de Rosh Hashaná. Ele se encontra próximo a D'us, e as orações vem da sua sincera vontade de retornar ao Criador.
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Leituras Especiais |
| A leitura da Torá de Rosh Hashaná (bem como Yom Kipur) é recitada com uma melodia especial.
A leitura contém um relato emocionante: o nascimento de Yitschac (Isaac) aos idosos pais, Avraham (Abraão) e Sara. É a primeira ocasião em que se inicia um menino judeu no pacto de Avraham com D'us, no Berit Milá (circuncisão). Avraham sente-se compelido a mandar Hagar e Yishmael (Ismael) embora; há uma descrição sobre o perigo e a salvação de Yishmael; seu estabelecimento no deserto como caçador e arqueiro de profissão, enquanto Yitschac devota sua vida ao estudo da Torá e a D'us.
O poderoso rei Avimelech, de Guerar, procura a amizade de Avraham e este ergue uma pousada gratuita em Beer Sheva e ensina os viajantes a rezar ao único D'us, o Criador do Universo.
Há uma inspiradora leitura da Torá no segundo dia de Rosh Hashaná. É a história da Akedá (amarração de Yitschac) - o teste mais severo que um pai e um filho tiveram que se submeter e pelo qual ambos passaram sem vacilar, com igual devoção e lealdade a D'us.
Após a leitura da Torá, ocorre uma das mais impressionantes e emocionantes partes do serviço quando o shofar é tocado. É proibido conversar desde as bênçãos do shofar até depois dos toques finais, na prece de Mussaf (que ocorre após ser guardada a Torá).
Por um breve período de tempo, faz-se silêncio completo na sinagoga. Cada um concentra-se consigo mesmo, pois este é o momento mais propício para uma auto-avaliação e arrependimento antes do toque do shofar.
Primeiro dia
Porção: Bereshit, XXI
Haftará: Shemuel I, I
Cinco homens são chamados para a leitura da Torá em Rosh Hashaná, se cair num dia de semana; sete - se o primeiro dia cai no Shabat; em ambos os casos - exceto aquele chamado a ler o Maftir. Dois rolos são tirados; o segundo é para o Maftir.
O nascimento de Yitschac (Isaac) é o tema da leitura da Torá no primeiro dia de Rosh Hashaná. A mensagem da porção pode ser encontrada em muitas lições. Primeiro, há a lição da Divina Providência e Onipotência. Sara, aos noventa anos, dá à luz ao seu primeiro e único filho, Yitschac, o segundo de nossos Patriarcas, quando Avraham (Abraão) já contava cem anos de idade. Yitschac é introduzido na Aliança de Avraham, no Berit Milá, à idade de oito dias, como D'us havia ordenado.
A importância da criação e da educação é também enfatizada nesta porção. Ao ver que Yishmael (Ismael), o meio-irmão mais velho de Yitschac, filho de Hagar, exerce má influência sobre o jovem Yitschac, Sara insiste em mandar embora Hagar e o filho. Perdidos no deserto de Beer Sheva e à beira de uma morte dolorosa pela sede, a Divina Providência salva Yishmael pela revelação miraculosa de um poço.
A porção conclui com um episódio ilustrando a elevação de Avraham aos olhos dos vizinhos que o cercam, quando Avimelech, rei dos Filisteus, vai visitar Avraham para estabelecer com ele uma aliança de paz.
O nascimento de Shemuel (Samuel) é o tema da Haftará, leitura dos Profetas. Tanto Sara como Chana (mãe de Shemuel) haviam sido estéreis e sem filhos, mas D'us por fim as abençoou cada uma com um filho. Tanto Yitschac como Shemuel foram consagrados ao serviço de D'us: Yitschac através do Sacrifício, e Shemuel como profeta.
A Haftará conclui com estas palavras significativas:
"Ó Senhor! Os adversários de D'us serão destruídos quando dos céus D'us trovejar sobre eles e julgar os confins do mundo; Ele dará força a Seu rei e levantará a taça de Seu ungido." Aqui a profetisa Chana refere-se ao último Dia do Julgamento e a "taça do Mashiach" - um tema muitas vezes mencionado nas preces deste dia.
Segundo dia
Porção: Bereshit, XXII
Haftará: Yirmeyáhu, XXXI
O sacrifício de Yitschac é o tema da leitura da Torá, no segundo dia de Rosh Hashaná, que segue diretamente a porção do dia anterior. É o símbolo de auto-sacrifício com o qual nós, filhos de Avraham, estamos sempre prontos a obedecer as ordens de D'us, e pelos quais D'us nos prometeu Suas bênçãos.
A Haftará apropriadamente fala da reconstrução final e redenção de Israel: "Pois o Senhor redimiu Yaacov (Jacó), e o resgatou de uma mão forte demais para ele... Assim disse o Senhor: Refreia tua voz do choro, e teus olhos das lágrimas, pois teu trabalho será recompensado... e retornarás da terra do inimigo. E há esperança para teu futuro... e teus filhos retornarão à sua própria fronteira." A Haftará conclui com a tocante declaração por parte de D'us, de Seu infinito amor e misericórdia por Israel: "Certamente Efraim é Meu próprio filho querido! Pois sempre que Eu falo sobre ele, ainda dele Me lembro fielmente... Certamente terei misericórdia dele, disse o Senhor."
Chana
Chana foi uma das sete mulheres a quem D'us deu o poder da profecia. Ao todo tivemos sete mulheres profetisas, e quarenta e oito profetas, cujas profecias são mencionadas nas Escrituras.
A história, como a lemos em Rosh Hashaná do primeiro capítulo do Livro de Samuel I, começa nos apresentando Elkana, o marido de Chana. Ele era um levita (pertencendo à tribo de Levi). Elkana foi um homem de caráter nobre e grande piedade. Observava com pena que muitos de seus irmãos judeus estavam aos poucos se afastando de D'us, e tomou sobre si a tarefa de incrementar um vivo interesse no centro espiritual de Shiló, onde Eli, o Sumo Sacerdote era o juiz de Israel naqueles dias. Como prescrito na Torá, Elkana fez uma peregrinação à Shiló durante cada estação dos Três Festivais. Juntamente com ele, sua família passava os feriados numa atmosfera religiosa na cidade sagrada do Santuário.
Quando o povo viu a caravana de Elkana chegando a Shiló num espírito feliz e animado, muitas pessoas se juntaram a eles. Um vínculo forte desenvolveu-se então entre o povo judeu e seu centro espiritual em Shiló, graças à influência de Elkana.
Chana era uma das duas esposas de Elkana, e não tinha filhos. Sofria em silêncio muitas humilhações nas mãos de Penina, mais afortunada por ter filhos. Em uma das peregrinações anuais a Shiló, Chana ficou no Santuário e abriu o coração a D'us. Pediu que D'us a abençoasse com um filho, prometendo que o consagraria por toda a vida a D'us. Rezou em silêncio, balançando suavemente. Eli a viu e pensou que estivesse embriagada. Repreendeu-a por entrar no Templo Sagrado em estado de embriaguez, porém Chana respondeu com dignidade: "Não, meu senhor, sou uma mulher triste; não bebi vinho ou algo forte, mas abri minha alma perante D'us." Eli entendeu a profunda piedade e tristeza que haviam movido esta mulher, dizendo a ela: "Vá em paz, e que o D'us de Israel te conceda o pedido que Lhe fez." Chana agradeceu-lhe gentilmente e foi embora, com felicidade no coração, na certeza de que sua prece seria atendida.
No devido tempo nasceu-lhe um filho, a quem chamou Shemuel, significando, como ela disse: "Eu o pedi (emprestei) de D'us." A alegria de Chana não tinha limites. Pelos primeiros anos, manteve-o em casa. Então, fiel à sua promessa, levou o menino à Shiló como uma oferenda de gratidão a D'us. Entregando o menino a Eli, o Sumo Sacerdote, Chana disse: "Meu senhor, sou a mulher que aqui esteve rezando a D'us. Rezei por esta criança, e D'us atendeu meu pedido." Disse a Eli do seu voto, e deixou o filho amado aos cuidados de Eli, para ser criado na atmosfera totalmente religiosa do Santuário.
Poderíamos achar que Chana ficou com o coração partido por separar-se do filho, pelo qual havia rezado por tantos anos, mas Chana estava cheia de alegria ao rezar a D'us e dizer: "Meu coração se rejubila em D'us." Estas foram as primeiras palavras da famosa profecia de Chana que assemelha-se a um maravilhoso hino:
"Não há ninguém santo como D'us, pois não há ninguém além d'Ele; nem há rocha nenhuma como nosso D'us.
"Não fales mais tão orgulhosamente; que a arrogância não saia de sua boca;
"Pois D'us é um D'us Onisciente; e d'Ele todas as ações são conhecidas.
"D'us enviou a morte e fez a vida; Ele mandou para o túmulo, e Ele elevou.
"D'us fez os pobre e os ricos; Ele rebaixou, e Ele elevou.
"Ele elevou os pobres do pó, e tirou os mendigos da imundície, e colocou-os entre príncipes, para fazê-los herdar o assento da glória..."
Ao lermos estas palavras inspiradoras da profetisa, podemos logo ver como são apropriadas para o Dia do Julgamento, Rosh Hashaná, quando D'us decide o destino de cada pessoa: quem viverá, quem será rico, quem receberá honrarias - ou o contrário.
A origem da prece da Amidá
Nossos sábios dizem que a profetisa Chana nos ensinou muitas coisas importantes. Uma delas é a importância de recitar uma prece sussurrando. Temos a Amidá "silenciosa", que é então repetida em voz alta pelo chazan (cantor).
A Amidá, que recitamos apenas movendo os lábios, mas com a voz quase inaudível, da maneira que Chana rezava, é a parte mais importante de nossa prece. Quando o coração está repleto e dominado pela presença do Todo Poderoso, então a oração é melhor expressa num sussurro.
Chana introduziu também o sagrado nome de D'us, como "D'us das Hostes", i.e., o Senhor de todo o universo, as hostes do céu e da terra. Isto é mais apropriado em Rosh Hashaná, quando proclamamos o domínio de D'us sobre o mundo inteiro.
As profecias de Chana
Conforme o Targum (que revela muitos segredos ocultos nas Sagradas Escrituras), o primeiro verso da prece de Chana contém a profecia de que seu filho Shemuel seria um profeta em Israel; de que em seus dias o povo de Israel seria libertado dos Filisteus; de que realizaria muitos milagres e maravilhas; e que seu neto Heman, com seus quatorze filhos, iria cantar e recitar os Salmos no Bet Hamicdash, juntamente com outros Levitas.
No segundo verso, Chana prediz a derrota de Sancheriv nos portões de Jerusalém. Continuando, ela faz profecias sobre Nevuchadnetsar e outros inimigos de Israel, que seriam castigados pela sua maldade; entre eles os Macedônios (Gregos) que seriam derrotados pelos Hasmoneanos; o perverso Haman e seus filhos e sua derrota nas mãos de Mordechai e Esther.
Finalmente, Chana profetizou a Grande Guerra Mundial, quando todo o mundo será engolfado numa guerra desesperada de auto-extermínio, e então Mashiach virá trazendo total redenção ao Povo de Israel. Haverá um novo mundo no qual não existirá o mal, a destruição, pois todo o mundo será repleto da sabedoria de D'us. |
O Shofar |
| O que é?
Você já pensou alguma vez que o shofar é um dos instrumentos de sopro mais antigos usados pelo homem? Somente a flauta do pastor – chamada Ugav, na Bíblia – o iguala em idade (de acordo com algumas opi-niões), mas não tem função no serviço Divino nos dias de hoje. O shofar, porém, é o mesmo que aquele usado há milhares de anos. Durante a história da humanidade foram inventados instrumentos novos, abandonados os velhos e somente nos museus poderemos encontrar uma flauta antiga. Não é digno de admiração que ainda nos apeguemos ao antigo shofar?
Naturalmente, se você considerar o shofar como um "instrumento musical" não tem grande valor. O shofar não produz sons delicados como o clarim moderno, a trombeta ou outro instrumento de sopro. Mas, para nós, o shofar não é um instrumento "musical"; não é usado por prazer ou divertimento. Longe disto; tem um sentido muito mais profundo. É um chamado para o arrependimento, avisando a chegada dos Dez Dias de Arrependimento, que começam com Rosh Hashaná e culminam com Yom Kipur.
Ele nos lembra o car-neiro sacrificado por Avraham (Abrão) no lugar de Yitschac (Isaac) através da história da Akedá (amarração de Yitschac), li-da no segundo dia de Rosh Hashaná. Orgulhamo-nos de ser descendentes de Avraham e Yitschac e por ter herdado algo de sua lealdade e devoção completas a D'us.
D'us não po-deria ter ficado irado com os filhos de Avraham, Yitschac e Yaacov (Jacó) que, à sua época, foram os primeiros e únicos a proclamar e santificar Seu nome no mundo. Concluímos que a verdadeira devoção à Torá e a D'us, inspirados em nossos patriarcas, significa estarmos preparados para fazer sacrifícios e ser completamente abnegados. Sabemos que milhares de nossos irmãos enfrentaram a morte com coragem para santificar o nome de D'us, como Avraham e Yitschac o fizeram.
Ocasiões em que era tocado
Nos tempos antigos, o shofar era usado em ocasiões solenes. A palavra shofar é mencionada pela primeira vez em conexão à Revelação Divina no Monte Sinai, quando "a voz do shofar era por demais forte e todo o povo do acampamento tremeu". Assim, o shofar em Rosh Hashaná deve nos lembrar a aceitação da Torá e nossas obrigações decorrentes de suas Leis.
O shofar também era tocado quando guerreávamos contra inimigos perigosos. Portanto, o shofar de Rosh Hashaná deve servir como um grito de guerra contra o inimigo interior, impulsos maus e paixões.
O shofar foi tocado no ano de Yovel (Jubileu), anunciando a libertação da escravidão e da penúria. O seu som, no dia de Rosh Hashaná, deve ser também sinal de quebra das correntes de pecados, de maneira que possamos começar uma nova vida com o coração puro, sintonizado em servir a D'us e aos semelhantes.
O shofar no Midrash
O shofar é feito de um chifre de animal casher. Qualquer chifre pode ser usado para o shofar, exceto vaca ou touro, pois estes chifres são chamados em hebraico de "keren" e não shofar, e também porque seu chifre poderia ser um lembrete do Bezerro de Ouro que os filhos de Israel fizeram no deserto, ao deixarem o Egito. Não seria apropriada esta lembrança no dia de Rosh Hashaná, quando nos voltamos para teshuvá.
Geralmente, e de preferência, o shofar é feito de um chifre de carneiro, em memória do carneiro que foi oferecido em lugar de Yitschac (Isaac), que permitiu-se ser atado e colocado sobre o altar como um sacrifício a D'us.
Rabi Abuhu disse: "Por que usamos um shofar feito de chifre de carneiro em Rosh Hashaná? (Em memória do carneiro de Yitschac), pois D'us disse: 'Toquem para Mim com um shofar feito de chifre de carneiro, e Eu me lembrarei do sacrifício de Yitschac e pensarei em vocês como se vocês, também, estivessem prontos a oferecer suas vidas a Mim.' "
Na Porção da Torá sobre o sacrifício de Yitschac, que lemos no segundo dia de Rosh Hashaná, está escrito: "E Avraham ergueu os olhos, e olhou, contemplando um carneiro na moita cerrada ser apanhado pelos chifres." Avraham viu o carneiro apanhado em uma moita após a outra.
Disse Rav Huna: "O carneiro apanhado de novo e de novo nas moitas cerradas mostrou a Avraham que seus filhos seriam apanhados em um exílio após o outro, mas ao final seriam redimidos pelo som do chifre do carneiro."
Rabi Chanina ben Dossa disse: "Cada parte daquele chifre tem sua importância: as cinzas do carneiro eram as fundações do altar interior no Bet Hamicdash; os dez tendões do carneiro fizeram as cordas da harpa do Rei David; a pele do carneiro fez o cinto de couro do profeta Eliyáhu; e dos dois chifres – o esquerdo foi tocado no Monte Sinai, quando da Outorga da Torá, e o direito, o maior, será tocado quando os judeus exilados forem reunidos de todos os cantos da terra, como está escrito: "E acontecerá naquele dia que o grande Shofar será tocado…".
O shofar deve ser curvo, para mostrar que devemos curvar nossos corações ao nosso Pai Celestial. Não deve ser decorado com ouro, ou mesmo com pinturas sobre ele. A única coisa permitida é alguns entalhes no próprio chifre, sem adicionar nada a isto.
A pessoa deve escutar o próprio som do shofar, e não um eco do som. Se alguém ouve apenas o eco dos toques, não cumpriu a mitsvá do shofar. Esta lei foi importante para os judeus na época da Inquisição Espanhola, quando os marranos (judeus em segredo) costumavam sair para as florestas, colinas e cavernas para tocar o shofar, pois se fossem apanhados neste ato, seriam queimados vivos em estacas.
Similarmente, em certos países árabes os judeus não podiam tocar o shofar, pois isso costumava assustar os árabes, que sabiam que Moshiach chegaria certo dia com o toque do shofar.
O shofar é tocado em Rosh Hashaná após a leitura da Torá, antes e durante a prece de Mussaf. Embora uma mitsvá não deva ser adiada, havia uma boa razão para adiar o toque do shofar para depois da leitura da Torá.
Isso aconteceu, numa certa comunidade judaica cercada por inimigos, em que o shofar foi tocado de manhã bem cedo. Os inimigos pensaram que os judeus estivessem convocando para uma rebelião contra eles, então os cercaram e os mataram. Ficou então decidido tocar o shofar após a leitura da Torá, pois, quando os inimigos viam que os judeus já haviam feito parte de suas preces pacificamente, percebiam que era uma reunião pacífica para a oração, e não uma rebelião contra eles.
Rashi explica que houve um tempo quando os judeus foram proibidos de tocar o shofar. Guardas eram postados para vigiá-los até que o serviço da prece de Shacharit estivesse concluído. Os judeus por isso tocavam o shofar mais tarde, durante o serviço Mussaf, e assim permaneceu esta regra, de tocar o shofar após o serviço de Shacharit. Existe ainda outra razão: pois naquele época os judeus já eram coroados com mitsvot, os preceitos entre os quais tsitsit, Shemá, e a leitura da Torá: então vem o shofar e lhes traz o perdão.
As bênçãos que antecedem o toque
O toque do shofar em Rosh Hashaná é um mandamento da Torá. É um preceito como todos os outros de nossa fé e, portanto, deve ser feita uma bênção especial antes de cumpri-lo.
O propósito da bênção é agradecer a D'us por nos ter santificado com Seus mandamentos e nos ter dado a oportunidade de cumprir a Sua vontade. Esta bênção, em geral, é um preparo para que nossos atos não sejam realizados apenas pela força do hábito e, sim, conscientemente, sabendo seu significado e perante Quem devemos agir. A bênção antes do toque do shofar tem a mesma finalidade.
Esta é a bênção: "Bendito és Tu, ó Senhor, nosso D'us, Rei do Universo, que nos santificou com Seus mandamentos e nos ordenou ouvir a voz do shofar." Começamos a bênção na segunda pessoa – como se estivéssemos diretamente perante D'us – mas a terminamos na terceira pessoa – pois D'us é Onipresente e Invisível, Santo e além da compreensão. Todas as bênçãos apresentam esta mesma estrutura.
Em hebraico a palavra Lishmoa ("ouvir" ou "escutar") da mesma raiz de Shemá, possui vários significados, entre eles, escutar ou ouvir com os nossos próprios ouvidos; além de entender e obedecer.
Deste modo, quando o Baal Tokêa (aquele que toca o shofar) faz a bênção por todos nós, espera-se que não só o som do shofar seja ouvido, como também compreendida e obedecida sua mensagem.
Os toques
O Shofar emite três sons característicos: Tekiá – um som contínuo, como um longo suspiro; Shevarim – três sons interrompidos, como soluços; Teruá – nove (ou mais) sons curtís-si-mos como suspiros entrecortados em prantos.
Estes sons do shofar evocam e expressam sentimentos de profundo pesar pelas más ações que cometemos no passado. É também uma conclamação às armas, como um tambor de guerra. O shofar nos convoca a lutar contra tudo que impeça a pratica do judaísmo em sua plenitude: paixões, preguiça e negligência; contra a influência de maus amigos, etc., afirmando que todos os preceitos são dignos para que lutemos por eles. E mesmo se no passado não os tenhamos observado cuidadosamente, o shofar diz que nunca é demasiado tarde para começar. D'us sempre perdoa o passado ao tomarmos boas decisões para o futuro.
Esta é a mensagem final do shofar, aquela do perdão Divino. Por isso, o último som do shofar é um toque longo, a Tekiá Guedolá (grande toque). Este som não representa soluço, nem suspiro ou lamento, mas um grito de triunfo e alegria; pois estamos confiantes de que D'us aceitou o nosso arrependimento.
Podemos notar esta expressão de alegria na melodia dos versos recitados logo após os toques. Enquanto os versos recitados antes são solenes, os que os seguem falam da alegria, que brota após um arrependimento sincero. Este é o real significado de ouvir, compreender e obedecer a voz do shofar.
Esta é a ordem dos toques do shofar:
1. Tekiá – Shevarim – Teruá – Tekiá
2. Tekiá – Shevarim – Tekiá
3. Tekiá – Teruá – Tekiá
O som de cada grupo é repetido três vezes, totalizando trinta toques. No total, durante o serviço matinal de Rosh Hashaná, o Shofar é tocado cem vezes (cada um dos sons acima mencionados é tocado três vezes e isto é repetido três vezes durante o serviço, somando noventa toques; no final, toca-se mais uma vez o grupo de dez, perfazendo os cem toques).
Os sons quebrados de Shevarim e Teruá lembram estes suspiros e gemidos abafados que penetram no co-ração, e servem para despertar a pessoa ao arrependimento e ao retorno. A Tekiá Guedolá – o último toque longo do shofar – soa como uma nota mais alegre e lembra o grande dia, quando o grande shofar será tocado para reunir do exílio todo o povo de Israel, com a chegada de Mashiach.
Qual é o significado do toque do shofar?
O shofar nos chama para acordarmos de nossa letargia mental pelas coisas terrenas e clama para que possamos despertar e nos envolver com as necessidades de nossa alma. É como um alerta: nos inspira temor lembrando que este é o Dia de nosso julgamento.
A mensagem do shofar, segundo Maimônides, é:
"Acordai de vosso sono e ponderai sobre os vossos feitos; lembrai-vos do Criador e voltai a Ele em penitência. Não sejais daqueles que per-dem a realidade de vista ao perseguirem sombras ou esbanjam anos buscando coisas vãs que não lhes trazem proveito. Olhai bem vossas almas e considerai vossos atos; abandonai os caminhos errados e os maus pensamentos e voltai a D'us, para que Ele tenha misericórdia para convosco!"
Esta é a função mais importante dos sons do shofar: inspirar a alma e provocar vibrações extraordinárias no coração, ativando o sentimento do arrependimento e humildade.
O despertar de nosso sono
O som do shofar é como o chamado de uma trombeta, despertando-nos de nosso sono. Estamos tão atarefados com os interesses do dia a dia – escola, trabalho, diversão – que tendemos a ficar indiferentes ao nosso verdadeiro objetivo na vida, como se estivéssemos imersos em sono profundo. Rosh Hashaná, o ano novo ano judaico, nos desperta para planejarmos o cumprimento de mitsvot e o estudo de Torá para o ano que se inicia.
Rabi Saadyá Gaon nos ensina aqui dez diferentes maneiras do shofar nos inspirar a viver uma vida melhor o ano inteiro:
Um
Quando um novo rei começa a governar, é expedida uma proclamação, acompanhada por toques de trombeta. A cada ano naquele dia, seu governo é novamente proclamado, também com o som da trombeta.
A Criação do Mundo foi completada em Rosh Hashaná, e o reinado de D'us começou no mundo. A cada ano neste dia, proclamamos novamente Seu governo com o toque do shofar.
Dois
Quando um rei emite um decreto, o chifre soa e um sinal de aviso é anunciado.
Os Dez Dias de Teshuvá (Penitência) começam com Rosh Hashaná. "Aperfeiçoe-se!" – somos advertidos, e quando este decreto é emitido, o shofar ecoa.
Três
Quando recebemos a Torá nas encostas do Monte Sinai, o som do shofar enchia os ares.
Neste dia de Rosh Hashaná nós nos dedicamos à vida de Torá novamente, e o som do shofar enche o ar.
Quatro
As palavras de nossos profetas de antigamente soam como um toque do shofar.
Lembramo-nos de suas palavras corretivas, quando ouvimos o toque do shofar.
Cinco
Nossos inimigos tocaram suas trombetas quando destruíram nosso Sagrado Templo – o Bet Hamicdash.
Quando tocamos o shofar em Rosh Hashaná, rezamos para que o novo ano traga a reconstrução do Bet Hamicdash, para que nossos pecados sejam perdoados.
Seis
Yitschac (Isaac) de boa vontade se ofereceu em sacrifício, como D'us ordenou, mas no último instante foi substituído por um carneiro.
Em Rosh Hashaná tocamos um chifre de carneiro para lembrar-nos – e a D'us – da devoção de nossos antepassados.
Sete
"Poderá o shofar soar na cidade e o povo não tremer de medo?"
O shofar nos faz estremecer no temor do julgamento de D'us.
Oito
"Próximo está o dia do (julgamento) de D'us: perto, muito rápido, o dia do shofar."
O shofar de Rosh Hashaná nos recorda do dia do Julgamento Final.
Nove
"E será naquele dia, soará o Grande Shofar, e os desgarrados virão da Terra de Ashur, e os rejeitados da terra do Egito."
O toque do shofar nos lembra do grande chifre de Mashiach – esperamos e rezamos para que soe este ano, para reunir todos os judeus dispersos pelo mundo afora.
Dez
"Os habitantes do pó… quando o shofar será ouvido."
O shofar nos lembra do dia da Ressurreição dos Mortos, quando estes se levantarão de seu sono.
Uma lição de humildade
Rosh Hashaná chama-se também Yom Teruá (Dia do Toque). Neste dia, é obrigação de cada judeu ouvir o shofar. Por ser finalidade do shofar inspirar-nos humildade e sentimentos de arrependimento, podemos compreender o porquê do shofar não ser ricamente decorado.
Os ornamentos não o tornam inadequado, desde que fiquem apenas do lado externo sem que suas paredes sejam perfuradas. Isto nos serve como lição da importância da simplicidade e humildade. Como o shofar que se torna inadequado se qualquer ornamento de ouro ou prata atravessar o osso do qual é feito, assim também nos tornamos seres humanos insignificantes se permitirmos que o ouro e prata sejam tão importantes na vida a ponto de "perfurar o osso" e se apossar da mente e da alma. |
| Pedido de Anulação de Promessas |
| A cerimônia de Hatarat Nedarim, Anulação de Promessas, anula qualquer promessa não cumprida por esquecimento ou força maior. É realizada antes de Rosh Hashaná para que o ano novo reinicie sem conexão com qualquer falha do passado. É realizada na sinagoga após Shacharit (a Prece Matinal\. Esse texto deve ser dito (na véspera de Rosh Hashaná, antes do meio-dia) perante três homens (de preferência perante dez), que são considerados "juízes":
(Tradução Livre) "Ouçam por favor meus senhores e juízes:
De toda e qualquer promessa que fiz, proibição que aceitei ou compromisso que assumi [sem declarar na hora que não teria valor de promessa irrevogável], tanto os de que me lembro como os de que não me lembro, e que não cumpri por esquecimento, me arrependo e peço diante dos senhores a anulação desses compromissos. embora pela lei a pessoa que está pedindo anulação de promessas deva enumerá-las detalhadamente, essa explicação detalhada se torna impossível, por elas serem muitas. em vista disso, peço o favor de considerar todas como se tivessem sido por mim detalhadamente enumeradas."
(Aqui os juízes respondem (três vezes) o texto oficial em hebraico impresso no Sidur,) e o declarante continua:
"Declaro perante os senhores que, desde já, me arrependo de todas as promessas que farei a partir de hoje, das quais porventura venha a me esquecer; que sejam desde já anuladas e tornadas sem efeito."
(Os "juízes" respondem o texto oficial em hebraico impresso no Sidur.) |
Alimentos Simbólicos |
| Vários alimentos simbólicos são ingeridos na refeição da primeira noite de Rosh Hashaná, e um pedido é recitado para cada alimento. Este costume é baseado em um ensinamento talmúdico: "Presságios são significativos; por isso cada pessoa deveria comer no início do ano abóboras, beterrabas, tâmaras e alhos-poró."
Maçã
Mergulhamos uma fatia de maçã doce no mel, recitamos a bênção da fruta (Borê Peri Haêts) e falamos: "Yehi ratson milefanêcha shetechedêsh alênu shaná tová umetucá".
"Possa ser Tua vontade renovar para nós um ano bom e doce ".
Chalot
As chalot servidas em Rosh Hashaná são redondas, símbolo de continuidade e eternidade, como o círculo que não tem começo nem fim; sem ângulos, nem arestas, um pedido para um ano sem conflitos. Costuma-se mergulhar o pão no mel em vez do sal habitual, em todas as refeições desde Rosh Hashaná até o sétimo dia de Sucot.
Mel
O valor numérico da palavra "dvash" (mel) equivale ao valor de "Av Ha'Rachamim" (Pai Misericordioso): assim o mel representa a esperança de que a sentença decretada pelo Supremo Juiz seja amenizada pela Sua compaixão.
Frutas e alimentos especiais
É costume comer carne e vinho doce ou qualquer bebida doce nesta refeição, para ter um ano farto e doce. Na segunda noite de Rosh Hashaná, imediatamente após o kidush, costuma-se ingerir uma fruta nova, a primeira vez que comeríamos nesta estação, a fim de pronunciarmos a bênção de Shehecheyánu.
Há quem costume recitar uma prece especial (Yehi ratson) antes de ingerir qualquer um dos seguintes alimentos. Conforme o costume Chabad, Yehi ratson só é recitado ao ingerir a maçã com mel.
Os sefaradim colocam no centro da mesa uma cesta (Traskal) contendo diferentes espécies de frutas que contém muitas sementes, para que as boas ações sejam numerosas no ano vindouro além de alimentos especiais entre os quais maçã, alho poró, acelga, tâmara, abóbora ou moranga, feijão roxinho, romã, peixe e cabeça de carneiro (que pode ser substituída por língua de boi ou cabeça de peixe). Antes de ingerir cada um dos nove alimentos recita-se um "Yehi Ratson" especial:
Alho-Poró
"Yehi Ratson milefanêcha sheyicaretu oyvêcha vessoneêcha, vechol mevacshê raatênu".
"Possa ser Tua vontade que sejam exterminados Teus inimigos e Teus oponentes e todos aqueles que querem nosso mal".
Acelga
"Yehi Ratson milefanêcha sheyistalecu oyvecha vessoneêcha, vechol mevacshê raatênu".
"Possa ser Tua vontade que sejam removidos Teus inimigos e Teus oponentes e todos aqueles que querem nosso mal".
Tâmara
Costuma-se ingeri-la para que acabem nossos inimigos (em hebraico, yitámu, parecido com tamar).
"Yehi Ratson milefanêcha sheyitámu oyvecha vessoneêcha, vechol mevacshê raatênu".
"Possa ser Tua vontade que sejam consumidos Teus inimigos e Teus oponentes e todos aqueles que querem nosso mal".
Abóbora, moranga ou cenoura
A palavra "mern", em yidish, pode ser traduzida como "cenoura" e também como "se multipliquem". Por isto comemos cenoura - para que os méritos se multipliquem.
"Yehi Ratson milefanêcha sheticrá rôa guezar dinênu, veyicareú lefanecha zechuyotênu".
"Possa ser Tua vontade que o decreto ruim de nossa sentença seja rasgado em pedaços, e que nossos méritos sejam proclamados perante Ti".
Feijão roxinho
"Yehi Ratson milefanêcha sheyirbu zechuyotênu".
"Possa ser Tua vontade que nossos méritos se multipliquem".
Romã
Costuma-se ingerir em sinal para que aumentem nossos méritos como os caroços da romã. Há uma explicação que a romã possui 613 caroços - o número das mitsvot da Torá.
"Yehi Ratson milefanêcha sheyirbu zechuyotênu carimon".
"Possa ser Tua vontade que nossos méritos cresçam em número como [as sementes] da romã".
Peixe
"Yehi Ratson milefanêcha shenifrê venirbê cadaguim; vetishgach alan beená pekichá".
"Possa ser Tua vontade que nós nos frutifiquemos e nos multipliquemos como peixes; e cuida de nós com olho aberto [atentamente]".
Cabeça de carneiro, língua ou peixe com cabeça
Costuma-se ingerir um destes alimentos para que sejamos cabeça e não cauda:
- de carneiro, para lembrar o mérito do sacrifício de Yitschac que foi substituído por um carneiro.
- de peixe, para que o ser humano se multiplique como os peixes.
"Yehi Ratson milefanêcha shenihyê lerosh velô lezanav".
"Possa ser Tua vontade que sejamos como a cabeça e não como a cauda".
Ingredientes que devem ser evitados
Não se come nada temperado com vinagre em Rosh Hashaná ou raiz forte para não ter um ano amargo. Nozes também não devem ser ingeridas nestes dias. Um dos motivos é porque as nozes provocam pigarro que pode atrapalhar as orações do dia; outro motivo é que o valor numérico da palavra egoz (noz) corresponde ao da palavra chet (pecado) sem o alef |
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